Um talher de toque e sedução para Salomé comer a cabeça de Batista

Este trabalho tem a sua origem na pintura Salomé do holandês Lucas Cranach (1479 - 1553), o Velho, que se encontra no Museu de Arte Antiga de Lisboa. O quadro sofreu grandes alterações num “restauro” feito já no séc. XIX. E foi essa intervenção-ação, essa pintura sobre a pintura, que desencadeou o meu interesse e como que estabeleceu a obrigação de prosseguir a intervenção-diálogo com a obra. O que me proponho aqui é apresentar um talher que acompanhe a pele, mas que possa também penetrar o corpo, objetivando assim o desenlace fusional do amor de Salomé por São João Baptista.

Salomé, Lucas Cranach - o Velho

Durante a pesquisa para este empreendimento muitas alternativas me surgiram e eu própria fui traçando um caminho que me ia aproximando de Salomé, de Batista, da obra de Cranach (e do resultado da reforma da sua pintura), dos prolongamentos deste episódio bíblico na ficção literária. Assim, após observar tanto a imagem quanto as suas modificações posteriores, e de eu mesma ter rascunhado muito sob a mão inicial de Cranach que foi completamente alterada - a ponto de quase ter produzido um talher para cada uma das mãos de Salomé -, senti a necessidade de suspender as pinturas e ir atrás da tragédia dos personagens. Logo entrei no texto dramático Salomé de Oscar Wilde. A partir dele comecei a trabalhar sobre a estrutura mítica das relações entre amor e morte ou, se quiser, sobre os limites mais fundos das feridas narcísicas. Entender a Salomé, com os seus absolutos de esplendor e sedução, esbarrando sempre na inabalável rejeição de Baptista, tornou inevitável a proposta de um talher que possa funcionar como um objeto de sedução, desejo e posse.

Se o talher foi desenvolvido para comer, o alimento que aqui se quer levar à boca outra coisa não é que a possibilidade de agir sobre uma imagem tornada mítica e, assim, munir um sentimento. Podemos “comer com os olhos”, mas a nossa personagem quer tocar, quer morder, possuir e unir-se com o ente que não pôde ter. Na peça de Óscar Wilde, já com a cabeça de Baptista no prato, Salomé suplica: ‘“...tenho sede da tua beleza, tenho fome do teu corpo e nem o vinho, nem os frutos podem alterar ou aclamar o meu desejo. Que farei agora, Iokanaan? Nem as ondas do mar, nem as águas da terra podem extinguir esta chama. Era uma princesa e desprezaste-me; era virgem e tomaste a minha virgindade; era casta e lançaste-me nas veias o fogo do amor’.  Ah! Ah, por que não me olhaste? Ter-me-ias decerto amado. Bem sei que me terias querido. O mistério do Amor é muito maior que o mistério da Morte’’’. Os talheres de Salomé possibilitam o acesso direto, uma a uma, a todas as partes do seu desejo. São ferramentas de toque e extração que a encaminham no interior de Baptista, nessa vertigem insuportável - que só a morte interrompeu - de rejeição e interdito. Permitem aplacar a dor de Salomé, dando-lhe como nutriente a pele e o corpo inerte. Os talheres instauram uma geografia de afastamento e controle que torna possível o exercício de tomada de posse do ser amado.

Performance Era Uma - exposição Percurso, 2018
Caixa Salomé - Ars Ornata Europeana symposium, 2005

E, inversamente, o prazer em consumir-aplacar o desprezo, o desgosto, o desconhecido, o desejo - sentimentos inexistentes em Salomé à data do seu encontro com Batista - está, enfim, inteiramente à mercê das suas mãos, num prato pronto para ser degustado. Sozinha, pode investir livremente e deter-se sobre cada sensação, cada toque, cada nova investida. Finalmente, Salomé tem à sua mercê Batista como imagem-objeto. Ele pode enfim ser analisado, tocado, dissecado, aberto e reaberto, sem remissão e sem qualquer possibilidade de resposta. Cada toque pode ser a concretização de uma sensação, um desejo e uma sedução. E cada peça que prolonga as suas mãos cumpre, rigorosamente, uma função. Um talher para tocar, para apreciar, para sentir o gosto do desconhecido, do mistério do amor físico e carnal. Salomé pode assim deter-se e refletir sobre a inesperada sensação que sempre acompanha aquele que morde um fruto verde. O diálogo prossegue: “‘tu não quiseste que eu beijasse a tua boca, Iokanaan, pois vou beija-la agora! Hei- de morde-la com os meus dentes, como se morde um fruto verde... Os teus lábios têm um gosto amargo. Era gosto de sangue?... Foi talvez o gosto do amor... Dizem que o amor tem um gosto amargo... Mas que importa? Beijei a tua boca, Iokanaan, beijei a tua boca”’.

Vinte e Tres / Ibero-Ameca - Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, 2017

A boca é a abertura por onde passa o sopro, a palavra, o alimento; e pode constituir tanto a porta do inferno como do paraíso. O fruto representa os seus desejos sensuais, e o seu verde joga simbolicamente com o vermelho da boca. Cores opostas. Mediador entre o calor e o frio, o verde é, ainda, a cor do despertar, da esperança, da força e da vida. Por seu turno, o vermelho é universalmente considerado como o símbolo fundamental do princípio da vida, tal a sua força, o seu poder e o seu brilho.

Vermelho é ainda a cor do amor. Verde e vermelho representam, muitas vezes, a complementariedade dos sexos: o homem fecunda a mulher, a mulher alimenta o homem; o vermelho é uma cor masculina e o verde feminina. Com este simbolismo que enquadra os seus anseios, e seu maior desejo, é evidente que a boca do profeta atrai e assusta ao mesmo tempo Salomé. Os instrumentos que aqui se apresentam procuram resolver esta tensão de contrários e o consequente impasse ansioso.

O talher de toque da boca deve ser leve, delicado e, ao mesmo tempo, terá de ter volume, para assim massagear os lábios, quase como cócegas. Salomé quer beijar, mas acima disso quer ser beijada. Como instrumento desse jogo da tentação, deverá provocar Batista. Esta peça é como uma semente em forma de lentilha, com encaixe para ela segurar e introduzir levemente na sua boca, mas sem entrar totalmente, devendo ficar na parte labial.

Salomé, "Boca" - Ars Ornata Europeana symposium, 2005

Os olhos de Batista - escuros, sombrios, perturbados - assustam Salomé. Na sua morte, com a cabeça no prato, ela suplica: “‘porque não me olhas? Teus olhos terríveis, cheios de raiva e desprezo cerraram-se ... Abre os olhos, porque não me olhas? Terás medo de mim?”’ Neste diálogo, Salomé transfere para o objeto amado o seu próprio medo; logo percebe que o pode assustar completamente se o obrigar a admitir que está a ser seduzido e tentado por ela. Salomé não duvida que, se for realmente olhada de frente e sem obstáculos, a resistência de Baptista deixa de ser possível. O artefato que contorna o olho foca ou direciona para o ponto de sedução, o próprio olho. Funciona como uma lupa, ou uma lente, mas sem vidro algum; tão só uma armação onde Salomé espreita e espera ser olhada por Batista. Materializa-se assim uma espera e apenas com o poder de seus próprios olhos tentará atrair o olhar dele.

Salomé, "Olho" - Ars Ornata Europeana symposium, 2005

A pele de Batista é branca e parece ser fria: “‘... não há nada no mundo tão branco como o teu corpo. Deixa que eu toque o teu corpo”’. Ele rejeita, e ela de imediato nega e retira as suas palavras: “‘é hediondo o teu corpo. Parece o corpo de um leproso, um muro caiado por onde se estivessem arrastado víboras...É hediondo, é hediondo!”’ Mas Salomé não pode resistir-lhe a tocar. Uma pele como a de Batista é delicada, macia. Um toque que deve ser tão delicado quanto forte, igualmente macio e pesado. Penso em algo que rode e que, com o peso da mão de Salomé, circunscreva a pele dele, passando para ambos sensações através do toque. Uma esfera com um bom tamanho para sua delicada mão se apoiar e também com um indicador para amparar o seu dedo de “toque” será o suporte de uma outra esfera menor, a qual vai realmente deslizar na pele de Batista.

Vinte e Tres / Ibero-Ameca - Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, 2017

Os corpos comunicam-se, embora estejam separados por um objeto que toca Baptista e que não está em contato direto com a mão de Salomé.

Performance Era Uma - exposição Percurso, 2018

“‘O teu cabelo apaixona-me. Óh! Esses cabelos parecem cachos de uva negra... Deixa pegar os teus cabelos”’. Apropriar-se dos cabelos de Batista como quem apanha este tipo de frutos supõe algo que enrosque, como uma manivela que acompanhe o movimento. Salomé sentirá o talher passar por cada mecha, não como uma escova ou um pente que deformaria seus cachos. Esta é uma ferramenta que permite o toque delicado, que acompanhe sem causar embaraço ou danificar.

Salomé, "Cabelo" - Ars Ornata Europeana symposium, 2005

Salomé pode, ainda, experimentar o sangue e, por fim, ficar a saber se é amargo ou se era o gosto mesmo do amor. Entre uma palmatória e um pião, um objeto de precisão - novamente uma forma de lentilha, só que menor -, e com uma ponta muito pequena e afiada como a de uma agulha, ela espetará seu amado mas sem o ferir. Importa-lhe só mesmo ter uma gota, um ponto coberto de sangue, que pode permanecer no metal: marcando-o para sempre, ou ser lavado. Salomé terá, desta forma, um fragmento de vida e do calor do seu amado. Para alguns povos o sangue é o veículo da alma. Ora, é definitivamente a alma de Baptista que Salomé quer entender e possuir.

Salomé, "Sangue" - Ars Ornata Europeana symposium, 2005

Cada objeto foi pensado como expressão do gesto, um prolongamento da mão. A cabeça está ali parada, e tudo o que Salomé precisava era conter, suspender e imobilizar Batista. Parece-me que ela não o vê como uma pessoa que mandou decepar, mas como um profeta a quem suprimiu a palavra e tirou a vida, para enfim ser ouvida e olhada.

Vinte e Tres / Ibero-Ameca - Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, 2017

Não importa a cabeça; só a alma que a despertou para o amor.

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